Às vezes a mente já sabe que acabou. Mas o corpo… ah, o corpo ainda está lá.
Completamente atrasado, romântico, lento e profundamente biológico.
Ele continua operando como se o vínculo ainda existisse.
É como se a mente estivesse morando em 2026, enquanto o corpo insiste em permanecer na cena final do relacionamento, esperando um desfecho que nunca veio.
Por isso, de repente, sem aviso, surge aquela onda, aqueles flashs na mente:
Uma lembrança. Um cheiro. Uma música. Um sonho no meio da madrugada.
Um vazio que entra sem bater na porta e pensamentos:
Será que eu errei? Será que acabou mesmo? Será que deveríamos tentar de novo?
O neurocientista António Damásio diz algo fundamental: sentimentos são a forma como o corpo participa do pensamento.
Em outras palavras, o corpo também pensa — só que não com argumentos.
Ele pensa com sensações, reações, descargas químicas e memórias implícitas.
Quando você se apaixonou, não foi apenas uma história.
Foram trilhas neurais, sinapses, fluxos hormonais.
Dopamina para o prazer.
Ocitocina para o vínculo.
Cortisol para o estresse da perda.
Noradrenalina para a excitação emocional.
Tudo isso virou caminho habitual no seu sistema.
E o corpo ama hábitos — mesmo quando eles doem.
Nietzsche dizia que a memória humana é muito mais leal ao passado do que às decisões do presente.
A mente já sabe, a memória guarda, o corpo reage… e a gente tenta fingir que está tudo bem.
E ainda existe outro ponto importante:
muitas vezes, você não sente saudade da pessoa.
Você sente saudade de quem você foi ao lado dela.
Ou do roteiro emocional. Ou do papel que desempenhava.
Ou da narrativa que dava sentido à sua vida naquele momento.
Fernando Pessoa dizia que, às vezes, dói mais a dor do que a causa dela.
E o término prova isso com maestria.
O corpo continua remoendo a sensação, mesmo quando a razão já saiu pela porta.
- O PRIMEIRO PASSO: NÃO É LUTAR CONTRA A DOR.
Rainer Maria Rilke dizia que aquilo que é difícil precisa da nossa ternura — e isso inclui a própria tristeza.
Fingir indiferença não cura nada.
Só cria sintomas mais criativos.
E, muitas vezes, tentar parecer forte é apenas maquiagem emocional.
Por isso, o tempo não cura ninguém sozinho. O tempo apenas oferece contexto. O que cura é o processamento.
- SEGUNDO PASSO: SENTIR NO CORPO
Não basta pensar sobre o que aconteceu.
É preciso sentir no corpo. O corpo precisa descarregar a energia do vínculo. Aquele choro que desmonta. Uma respiração que acalma. Caminhadas longas. Escrita terapêutica. Terapias corporais. Mindfulness.
Tudo aquilo que devolve o corpo ao presente.
Gabor Maté lembra que o corpo guarda a conta emocional.
E se você não negocia com ele, ele cobra com juros.
- TERCEIRO PASSO: VIVER MICRO-LUTOS
Não foi apenas o fim de um relacionamento. Foi o fim de um plano de vida.
De uma identidade compartilhada. De um hábito emocional.
E isso exige despedidas conscientes.
- QUARTO PASSO: CUIDAR DAS ILUSÕES DO CÉREBRO
A mente apaixonada é uma excelente editora de filme romântico.
Ela corta as cenas ruins e reprisa as boas em alta definição.
o ser humano se apega mais ao que deseja do que ao que é.
E a gente sabe: muita saudade é mais fantasia do que realidade.
Nem tudo o que dói é ausência.
Às vezes é projeção.
- QUINTO PASSO: REEDUCAR O CORPO
O corpo precisa de novas referências de segurança.
Novos vínculos saudáveis. Novos prazeres. Novas presenças.
Aos poucos, o sistema nervoso aprende que a vida continua.
E que sim, existe amor depois do amor.
Inclusive — e principalmente — o amor-próprio.
- FECHAMENTO
Albert Camus dizia que, mesmo no meio do inverno, existe dentro de nós um verão invencível.
O corpo só precisa de tempo, cuidado e verdade para encontrar esse verão.
Então, escuta bem:
você não está atrasada. Você não está quebrada. Você não tem defeito emocional.
Você está viva. E viver implica sentir. E sentir implica integrar.
A mente fecha o livro rápido. O corpo lê devagar.
Sublinha. Volta páginas. Relê trechos. Chora no parágrafo final. Depois de um tempo, ele também termina.
E quando termina, a saudade vira história. A história vira aprendizado. E o aprendizado vira chão.
E aí, sim, você segue. Sem pressa. E com dignidade emocional.






